Casa Chelense: uma tasca para estudantes e futricas.

Interior da casa Chelense.

Na Baixa de Coimbra, próximo à estação de trens, localiza-se um dos mais lendários pontos de encontro de intelectuais, mencionado nos jornais já em 1908.

Exterior da Casa Chelense.

Texto/Fotos: REGINA BOSTULIM, de Portugal

Defronte ao restaurante de caridade das Irmãzinhas dos Pobres, no meio do largo denominado Terreiro do Mendonça, destaca-se um restaurante muito especial. Informalmente conhecido como “a taberna de Manel”, o local tem o nome oficial de Casa Chelense. O adjetivo vem da cidade de Chelo (Penacova), local de nascimento do dono da tasca, senhor Manoel Fonseca Santos.

Já de entrada, à porta, muito classicismo. Os símbolos báquicos (parreiras e uvas) e os ramos de loureiro fazem jus à fama do local. Diz a lenda que ali comeram antigos poetas como Eugênio de Castro, Antonio Nobre, Silva Gaio, Antonio Lopes Vieira, e muitos outros. Se foi ali mesmo ou em outra lendária casa de pasto (como são chamados os restaurantes de certa categoria, em Portugal), ninguém sabe.

Alvará de 1945, terno de 250 euros

A trtadição e asseio da casa é comprovada pelo alvará antigo, de cerca de 1945. Esta época corresponde ao fim da II Guerra, quando Portugal vivia sob o rigoroso regime salazarista.  Naquele tempo, apenas casas muito asseadas e de bom nível tinham alvará, já que as  tabernas eram consideradas insalubres e perigosas.

O local continua frequentado por intelectuais, mas não é apenas estudantil. São permitidos “futricas” (não estudantes). (Nos tempos antigos, em que todos os estudantes usavam uniforme, algumas tascas eram dominadas só por eles. Com a crise, conseguem comprar o caro uniforme – chamado de “fato acadêmico” – que custa cerca de 250 euros na famosas lojas A Toga e Tertúlia). (Fato é como se chama terno de homem em Portugal).

Ilustração Portugueza

Divina comida, cujos sabores inspiravam os lendários poetas. Os menus da casa eram assim descritos pomposamente pelos vates: “Carapaus de escabeche, pataniscas de bacalhau ‘finas como hóstias’, favas apaladadas e mãozinhas de porco, picheiras de carrascão e de branco ‘que é refresco’”. (Traduzindo o linguajar luso de antanho: Carapaus são tipos de peixe. Pataniscas são pedaços de bacalhau à milanesa. Picheira é um jarro de cristal cheio de vinho. Carrascão é o vinho tinto).

Lá fora, porém, a brincadeira tomava e toma conta dos cardápios. O pão é descrito como “pão que o diabo amassou”, os drinques como “água da bica”, e por aí vai. Tudo dentro da tradição estudantil. Afinal, em 1908, Vicente Arnoso, de Ilustração Portugueza, dava o tom (jocoso) de Coimbra.

Tasca das tascas

Conforme descreve Arnoso, para os “briosos” estudantes, a universidade também era uma tasca. Só que “a tasca das tascas, a tasca máxima”. Mas “com bem menos amáveis taberneiros”. (Tascas são bares, em Portugal). (O termo “brioso” refere-se ao time de futebol dos estudantes, a Acadêmica, conhecida como Briosa, cujos torcedores também levam o nome de briosos).

Nos tempos antigos, as taberneiras ofereciam “umas moelinhas”, famoso prato com moelas. Só que o petisco vinha depois de “berbigões, bolos de bacalhau, carne entremeada, ossos cozidos, tudo bem regado com tinto de Vila Nova de Aruças e branco de Rio de Galinhas”. O lauto jantar custava 3 contos, a conta dividida por 10 gulosos estudantes.

Molhos e ervas bravas

Hoje em dia a casa não faz por menos, e quem comanda a cozinha é a esposa do senhor Manoel, a senhora Cândida. Ela é de Valpaços, terra de molhos, temperos, negalhos e ervas bravas.

A afável senhora é conhecida na Baixa de Coimbra por passear acompanhada de simpática dupla. São dois cãezinhos pretos idênticos, mãe e seu filhote. Os bichinhos são levados, correm lampeiros puxados de vez em quando pela dona. Vão amarrados numa cordinha – chamada em Portugal de trelinha – ali pelos locais próximos ao Terreiro do Mendonça.

Post scriptum:

(Os trechos destacados nesta reportagem, em linguagem antiga, referem-se a antigos materiais jornalísticos publicados sobre a casa. Os papéis emoldurados, amarelados pelo tempo, são mantidos pelos donos, como decoração. Já nem se lê o nome do jornal ou a data. Fica aqui a homenagem aos gloriosos repórteres de antanho que frequentaram o local e ali deixaram suas reportagens).

Serviço:
Casa Chelense. Rua das Rãs, 1. Terreiro do Mendonça. Coimbra, Portugal. Tel: 966 110 916.

Sugestão de menu: sardinhas grelhadas com pimentos (€ 3,80 euros),  jarrinha de vinho da casa (meio litro, € 1,60 euros).

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Esta entrada foi publicada em 03/10/2012 às 8:25 e está arquivada sob Culinária, Portugal, Restaurantes, Turismo. Guarde o link permanente. Seguir quaisquer comentários aqui com o feed RSS para este post.

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