Magia da imagem em antigo local de reclusão.

Antiga prisão.

Edifício de sinistra história e nefasta memória com exposição do melhor fotojornalismo português.

Grades.

Texto/Fotos: REGINA BOSTULIM, de Portugal – O Centro Português de Fotografia, localizado na cidade do Porto, em Portugal é um dos espaços mais impressionantes da cidade. E um dos de mais nefasta história e memória. Situado em antiga prisão, as salas são imensas, de altura impressionante e imponente. Ali, o local de punição deu lugar à arte das imagens. Porém o clima do edifício é aterrador.

Visitar o local durante as exposições do Prêmio Fotojornalismo 2012, foi um privilégio. Em cada um dos espaços, uma exposição aberta ao público, com entrada franca, de 16 de junho a 23 de setembro de 2012. Mas o passado das imensas salas, que  atualmente abrigam arte, era maléfico. Anteriormente chamadas enxovias, abrigavam presos, que eram torturados e mortos em condições desumanas. O inferno de tortura e morte, ironicamente, recebia nomes de santos católicos: Stª Teresa, Stº Antonio, de S. Victor, Stª Rita, Sr. de Matosinhos, Stª Ana.

Sinistro edifício

A maligna história do sinistro edifício é contada através das notas históricas das estudiosas portuguesas Maria José Moutinho Santos e Margarida Santos Coelho. Os detalhes são chocantes. No térreo, as salas eram lajeadas originalmente de granito. E eram escuras, húmidas e frias. O acesso era através de alçapões situados no andar superior. Em uma das salas, pode-se ver uma espécie de pelourinho, em que provavelmente os presos eram punidos. Vêem-se nitidamente, na parede, os lugares onde deviam haver instrumentos de ferro que mantinham os presos imóveis enquanto recebiam punições brutais.

No segundo piso, mais tortura e reclusão, e de novo nomes de santos: S. José e N.S. do Carmo. E uma saleta para mulheres. O primeiro andar era um local um pouquinho mais salubre. No último andar, ficavam quartos individuais, chamados “Quartos de Malta”. Eram destinados a “pessoas de condição”. Estes quartos eram fechados apenas durante a noite, assim como as enfermarias.

Grades de ferro

Os presos eram tratados conforme o tipo de crime cometido, mas também levando em conta as posses. Ou seja, eram segregados conforme a classe social do detido e sua respectiva capacidade de pagar a carceragem. Apesar de teoricamente dever reger-se por regulamentos internos, estes eram ignorados.

O edifício começou na ser construído em 1767, de paredes-meias com o Convento de S. Bento da Vitória. As paredes são grossas, as grades de ferro largas e duplas. As portas são chapeadas a ferro.

Corredor escuro e gelado

Naquele inferno até as orações e o trabalho eram forçados. Existia um oratório para os presos condenados à morte. E uma capela onde era celebrada missa. Em 1902 havia alfaiataria, sapataria, e oficinas similares destinadas às mulheres. Finalmente foi lembrado que os presos deveriam ter alguma ocupação, ao invés de serem torturados todo o tempo. Mas era trabalho escravo, além de torturados, passaram a ser utilizados como mão-de-obra.

Em 1892 criou-se um pátio. E separaram-se os menores dos adultos. Além da sala no segundo andar, as mulheres passaram a ocupar a Enxovia de Stª Teresa.  Porém, nos anos 60 do século XIX, com a prisão de Ana Plácido, foi criado um pequeno corredor, escuro e gelado, no último piso.

Condições precaríssimas

Apesar do conceito de prisão do século XIX ser diverso daquele do século XVII, para o qual o edifício tinha sido construído, nada mudava. No século XX ainda vigoravam “condições precaríssimas”. O Tribunal saiu para outro edifício em 1937. E ainda não haviam celas individuais, refeitórios, banheiros. Ou separação total das mulheres e menores dos presos homens.

Com a queda do regime salazarista, através da Revolução dos Cravos (abril de 1974), o prédio foi desativado. Os presos foram transferidos para um estabelecimento prisional em Custóias, que ainda estava em construção.

Larápios, vadios e artistas

A partir de 1987, o prédio foi remodelado e recuperado, após investigação histórica, sondagens arqueológicas e datação de materiais. Em 2000 o prédio passou a abrigar o Centro Português de Fotografia.

A velha prisão tinha acolhido larápios famosos, como Zé do Telhado. E moedeiros falsos, vadios, políticos em desgraça, revolucionários e até artistas. O escritor Camilo Castelo Branco esteve preso no quarto de S. João. E contou as histórias de horror. Por mais de duzentos anos a maligna prisão aplicou punições brutais, típicas do Antigo Regime setecentista.

Para ser visitado:

Centro Português de Fotografia  (Localização: Edifício da Ex-Cadeia e Tribunal da Relação do Porto). Na cidade do Porto, Portugal.

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Esta entrada foi publicada em 03/10/2012 às 8:36 e está arquivada sob Turismo. Guarde o link permanente. Seguir quaisquer comentários aqui com o feed RSS para este post.

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