Nils Skåre: “cavaleiro de brilhante armadura”, em defesa da Palavra

k11 Livros muito bonitos esteticamente. E bem escritos. Não é sonho. É realidade. No stand da editora L-Dopa, livros multicoloridos deslumbram o público leitor, numa cornucópia de cores. São livros baratos. Acessíveis. (A maioria custa cerca de 10 reais). “Livros para todos”, conforme idealizou o genial criador da editora, o editor americano-sueco-brasileiro Nils Skåre.

entrevista

UM PAÍS DE LIVROS

Bate-papo com Nils Skåre, editor da L-Dopa Publicações.

NILS SKÅRE. Guarde bem este nome. Ele é jovem e traduziu os escritores mais cool do planeta. Traduziu H.P. LOVECRAFT, ISAAC ASIMOV. E como se não bastasse, BAUDELAIRE, PHILLIP K. DICK. Pense num escritor muito descolado, e o Nils já traduziu. Nils é cérebro irrequieto, em L-Dopa Publicações.

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Nils Skåre autografa seus livros no espaço da Editora L-Dopa. Em 2018 foi o maior e mais bonito stand, com os mais belos livros, na Feira do Livro Editora UFPR, Semana Literária & Feira do Livro SESC. A tradicional Feira de Livros ocorre todos os anos, geralmente na primavera, em setembro.
ok2 Capa que tem uma mensagem. Miolo que tem significado. Este é o incorrigível e exigente padrão do editor Nils Skåre. Quanto ao estilo, “A encruzilhada” tem ritmo cinematográfico. É um mergulho na música pop. Todas as artes na literatura. O escritor Nils Skåre escreve como quem dirige cinema, de repente o diretor grita “corta”. Como tradutor e  editor “corta” ainda mais fino e rente. Precisão é uma das marcas deste artista multifacetado.

Escritor, tradutor, editor. Foram mais de 60 títulos editados, traduzidos e escritos em poucos anos. Esta “força da natureza” escreve todos os dias e mantém um rigoroso padrão de qualidade literária em todos os produtos de sua editora. Nils Skåre é Homem de Letras. Cidadão do Mundo. Nascido no Brooklyn (bairro de Nova Iorque/USA), criado na União Européia (Suécia), e radicado em Vila Amélia (bairro de Curitiba/PR). Mora numa casa com floresta, situada próxima a uma favela e a uma universidade. Sim, o Brasil tem muitos lados! Mas da quietude do bairro, (perto também de uma escultura  com anjos dançantes, chamada “Fonte de Israel”), dali Nils irradia literatura, duma maneira que vêm modificando a forma que os leitores vêem o mundo.

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Texto: Regina Bostulim

            Nils Skåre, 38 anos, (conforme ele mesmo se autodenomina), é o “ditador espiritual” da prestigiosa L-Dopa Publicações, que vem sendo reconhecida como uma das mais criativas do planeta. A editora se destaca na cena literária global como das mais dinâmicas e arrojadas. E possivelmente galgou a árdua escada do sucesso editorial por seus métodos editoriais inusitados. Escolhe para editar títulos outsiders e fora de catálogo, que são vendidos a cerca de dez reais. A meta: divulgar a cultura, disseminar os clássicos, fazer o livro estar presente na vida das pessoas. Com a palavra, Nils Skåre, editor, tradutor, e, sobretudo, escritor. “Homem de Letras”, como ele mesmo se define. “Gentil cavaleiro de brilhante armadura”, de ideais ecológicos e budistas, para quem o mais importante é a ética: vem primeiro o ser humano.

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Retrato do jovem editor em tempos de chuva: livros humanistas em meio à crise de valores morais mundial.
ok3A trilha não é só tradução e edição. Como escritor, Nils Skåre emociona. Aliás, ele se sente escritor, depois tradutor, editor, cientista, etc, nesta ordem. Mas, na verdade, ele é, essencialmente, poeta. Um esteta da palavra. Cavaleiro errante, a lutar pelos indefesos. Mas antes de tudo um bardo.

 

JOGO DE XADREZ COM NILS SKÅRE:

ok4 Antológica cena do filme sueco de Ingmar Bergman, “O Sétimo Selo” (1957): Morte joga xadrez com valente cavaleiro (o jovem Max Von Sidow) e perde. Num dos mais terríveis momentos da Idade Média – a Peste Negra – o prêmio é deixar a trupe do artista inocente (Nils) sobreviver.

Regina Bostulim, jornalista (a “Morte”) Como você se descobriu editor? Com que idade?

Nils Skåre, editor de livros, L-Dopa Publicações (o “Cavaleiro de brilhante armadura”) – Eu me considero mais um escritor que edita do que um editor que escreve. Comecei a editar quando surgiu a editora, mais ou menos em 2006. Me descobri editor fazendo o trabalho de edição. Não parei em um momento e decidi ser editor. O primeiro livro que editei foi de Howard Zinn, Você não pode ser neutro num trem em movimento.

Quem sugeriu o título foi Klaus Weber, que fundou a editora comigo e que atualmente ocupa o cargo de Conselheiro Adjunto na editora.

Eu tinha 26 anos.

k6 “Você não pode ser neutro num trem em movimento”, de Howard Zinn. Uma predileção literária marcou a estréia de Nils Skåre como editor e tradutor de vanguarda. A partir dali o mundo editorial nunca mais foi o mesmo.

Regina Quando descobriu que era capaz de escrever?

Nils – Desde muito criança que escrevo.

Escrevi primeiro conto.

“Tentei evitar  a constatação inevitável de que eu era escritor. Mas não teve como evitar, era mais forte que eu”.

 

“Estar sozinho

é de certa forma

estar escrevendo”

 

Regina Você acha que escrever é solitário?

Nils  – A escrita é solitária na medida que a solidão também é algo de escrita.

Estar sozinho é de certa forma estar escrevendo.

 

Regina Qual sua formação?

Nils  – Estudei Ciências Sociais e Letras. Abandonei os cursos no final.

 

Regina – Por que abandonou os estudos? E logo na reta final?

Nils  – Minha opinião sobre o sistema de ensino está no livro Deschooling Society (A sociedade desescolarizada, 1971), de Ivan Illich.

 

“A universidade

está voltada

para a validação do saber”

 

Regina O estudo “apara as asas”?

Nils  – “É mais complexo que isto”.

Escola vem do grego skholé (σχολή), que significa lazer.

Os gregos não tinham idéia de uma escola como nos dias de hoje, de formação para o mercado.

“E em alguma medida a universidade está voltada para a validação do saber que para o saber propriamente dito”.

 

Regina Como se descobriu tradutor?

Nils  – Meu amigo Weber me propôs traduzir Zinn e me aprofundei com um grupo de estudos de tradução da Universidade Federal do Paraná/Ufpr, principalmente quanto à poesia.

 

“Por que as pessoas iriam abdicar

 do prazer de ler Shakespeare?

Para ver reality shows?”

 

Regina Que línguas fala fluentemente e quais é capaz de traduzir?

Nils  – Falo inglês, francês, e mais uns arremedos de alemão e de japonês; mas também tenho noções de sueco, grego antigo e também pali (parente do sânscrito, em que estão os escritos originais budistas).

 

Regina E sobre a edição de Goura Nataraj, “O grande meio-dia”?

Nils  – O Goura é meu amigo de adolescência e ganhou proeminência no movimento cicloativista em Curitiba. Ele me procurou com um livro de ensaios que tangenciam essa vivência dele e eu achei interessante publicar. Acho que, independentemente dos méritos políticos que ele angariou como vereador e agora, deputado, o livro se sustenta e segue cheio de questionamentos e reflexões pertinentes.

 

Regina Qual o seu processo criativo?

Nils  – “O processo do artista está ligado à liberdade. O artista acaba desenvolvendo uma disciplina  desta liberdade. O processo criativo é a maneira como o artista vai se aproximar da liberdade para o continuar existente.

“A literatura é um prazer do qual não consigo abdicar”.

“Não quero educar alguém, doutrinar alguém. Por exemplo, Shakespeare. Por que as pessoas iriam abdicar do prazer de ler Shakespeare? Para ver reality shows?”.

Horácio tem uma fala sobre educar.

(E aqui desconversamos, e Nils acaba não contando qual a frase de Horácio. Lembrei de umas frases do outro Horácio, não o da Antiguidade, mas do Horace Mann, que diz:

– “Uma casa sem livros é como um quarto sem janelas”; e

– “Tenha vergonha de morrer até que tenha obtido alguma vitória para a Humanidade”.

(Penso que a casa de Nils deve ter muitos livros (afinal ele lê uns 3 por semana). Mas ele diz que não, que passa os livros adiante. E então também penso que Nils, aos 38 anos, fez o que muitos sonhariam, tornar realidade um mundo de livros).

“Ler

é conhecer

pessoas”

 

As pessoas podem ler Sherwood Anderson e obter prazer com isto.

Podem até sair da depressão lendo Sherwood Anderson, Winnesburg, Ohio.

A gente somatiza nossas experiências antes delas virarem realidade.

Tem gente que tem consciência disto e pode driblar este sentimento.

k5 “Winesburg, Ohio”, de Sherwood Anderson: literatura no combate à depressão.

Ler é conhecer pessoas.

Lendo Winesburg, Ohio, o primeiro conto é sobre um solitário, e pode ajudar na própria solidão.

Uma mulher com problemas com o marido pode ler, por exemplo, contos de Guy de Maupassant, os livros nos fazem companhia.

 

“Escrevo

pelo menos

todo dia”

 

Regina Quantas horas escreve por dia?

Nils  – Escrevo pelo menos todo dia. Stephen King propõe escrever 2.000 palavras por dia, ou ao menos em 2-3 dias.

Nos últimos anos escrevi um conto por semana.

Escrevi 5 livros, sendo livros de contos e novelas.

Traduzi mais ou menos 20, 25 autores.

 

“aquele que não

provou do (…) mel

é um insensato”.

 

O processo de escolha do autor é afetivo. O livro que eu gostaria de ler, que viesse para minha estante.

A editora publicou uns 25, 30 livros.

“Não tenho uma concepção de tradução subjetivista. É como a resolução de uma fórmula matemática. Mas seria falso dizer que não existe criatividade nisto”.

Lautrèamont diz, em Cantos de Maldonor: “Ó matemática severa, aquele que não provou do vosso mel é um insensato”.

 

“Quanto menos livros

eu tenho,

mais livros eu leio”.

 

Regina À parte de sua vida como editor, tradutor e escritor, quais são os seus hobbies?

Nils  – Li 83 livros este ano. Chego a 100.

Leio 2 por semana.

Gosto de Ray Bradbury, especialmente de “Crônicas Marcianas”.

Não tem autor que eu goste mais.

Sou eclético.

Estou me desfazendo dos livros de minha biblioteca. Não tem necessidade de guardar se outros podem ler.

Quanto menos livros eu tenho, mais livros eu leio.

 

“minha política

ontem, hoje e sempre

é o livro”

 

ReginaQual a importância das mídias digitais para a L-Dopa? E sobre ter disponibilizado livros até mesmo de graça no site da editora?

Nils  – Caio é responsável pelas mídias digitais e livros disponibilizados no site. É o gerente comercial.

 

ReginaComo surgiu a idéia de reimprimir livros fora de catálogo e em editar e traduzir obras consideradas das mais “malditas” e “inusitadas”?

Nils  – O processo editorial é marcadamente afetivo. E às vezes se percebe que um autor está fora de catálogo. Mas minha política ontem, hoje e sempre é o livro. A experiência do livro.

 

“O livro pode levar você

a um ponto muito longe.

Não tenha medo de ir…”

 

ReginaVocê tem 38 anos, alguns diriam que “é jovem para um editor”.  Sua equipe editorial é das mais jovens e dinâmicas. São amigos. Qual o segredo do sucesso? Serem acima de tudo leitores? Leitores antenados?

Nils  – Acho que para você se tornar mestre em alguma coisa, é preciso trabalho e também prazer. Se você não se diverte fazendo o que faz, está se subaproveitando.

k99 Escritor, tradutor, editor. E também cientista. Nas melhores revistas científicas destacam-se brilhantes artigos científicos do cientista Nils Skåre, que por vezes acabam por “renovar o ar de mofo” de bibliotecas centenárias.

ReginaO que gostaria de dizer aos jovens leitores?

Nils  – “O livro pode levar você a um ponto muito longe. Não tenha medo de ir até esse ponto”.

 

ReginaUma reflexão sobre o momento atual no Brasil e no mundo.

Nils  – Num barco salva-vidas, se uma pessoa ficar calma, maiores as chances das pessoas serem salvas.

Não devemos incentivar a paranóia cultural.

Quem se beneficia de nossa ansiedade?

George Bush foi à TV após WTC e sugeriu que as pessoas fizessem compras.

Ansiedade corre lado a lado com o consumismo.

 

“Um imperador chinês (…)

mandou queimar

todos os livros”

 

ReginaÉ difícil garimpar as palavras, engastá-las em jóias. E depois as vende barato, até as dá de graça, pois acha que os pobres também têm direito a ter um livro!!!

Nils  – “Tudo o que merece ser feito, merece ser bem feito”.

k999 A autobiografia  de Emma Goldman fez tanto sucesso, que esgotou-se rapidamente das prateleiras das livrarias reais e virtuais. O público veio pedir uma solução. De pronto, Nils Skåre disponibilizou no site da editora, de forma absolutamente gratuita, o livro.

ReginaE sobre censura, civilização versus barbárie?

Nils  – Um imperador chinês do século V mandou queimar todos os livros.

 

ReginaGrata Nils, pela oportunidade desta entrevista e desta conversa. Deus o abençoe e proteja nesta sua luta pela arte, pela cultura, e pelos livros.

Nils  – Muito obrigado!

Obrigado mais uma vez!

 

dra  Por fora, originalidade gráfica e editorial nas coleções da Editora L-Dopa. No interior, a precisão das traduções de Nils Skåre. O tradutor “corta rente” como lâmina computadorizada.
k10   Padrão editorial L-Dopa: patos de Ibsen. Até o cartão de visita é bonito, arrojado, inusitado.

 

LINKS:

L-Dopa:

http://ldopa.com.br/

 

Livro de Emma Goldman, download gratuito:

http://ldopa.com.br/produto/vivendo-minha-vida-digital/

 

Podcast com Nils Skåre:

http://ldopa.com.br/podcast/podcast-como-prevenir-a-depressao-com-winesburg-ohio/

 

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créditos/imagens:
Nils Skare no Paço da Liberdade: Regina Bostulim
Livros: L-Dopa
“O Sétimo Selo”: Arquivos fílmicos da Suécia.

 

Agradecimentos a Nils Skåre e L-Dopa.

 

 

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Este post foi publicado em 16/12/2018 às 16:52. Ele está arquivado em Artistas, Contos, Entrevistas, Escritores, Jovens, Literatura, Poesia, Tradução, Transcriação, Uncategorized e marcado , , . Guarde o link permanente. Seguir quaisquer comentários aqui com o feed RSS para este post.

Uma opinião sobre “Nils Skåre: “cavaleiro de brilhante armadura”, em defesa da Palavra

  1. Agradeço Nils Skåre pela brilhante entrevista!

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